Entrevista com o Agente de Polícia Federal e escritor Sandro Araújo

APF Sandro Araújo
Agente de Polícia Federal Sandro Araujo

 

Entrevista do dia

O blog Rumo à PF com muito orgulho entrevista o Agente de Polícia Federal Sandro Araujo.

Rumo à PF: Primeiramente, obrigado por nos permitir esse momento que com certeza irá ajudar muitos candidatos ao cargo de Policial Federal a tirar suas dúvidas e esclarecer algumas situações. Sem mais delongas vamos a entrevista.

Rumo à PF: No início de tudo, como foi sua preparação para o concurso?

Sandro Araujo: Na minha época era um pouco diferente do que é hoje. Eu havia acabado de pedir baixa da Escola Naval, onde estudava para ser oficial da Marinha. A prova da Polícia Federal ainda era de nível médio. Aliás, foi a última. Estudei História, Geografia e Português. Bem distante do que é hoje. Acabou que saí da Escola e a prova, que seria em agosto de 1993, acabou sendo adiada e só a fiz em dezembro.

Rumo à PF: Após ser aprovado na primeira etapa (objetiva/subjetiva), ainda restava o TAF, exame médico e psicotécnico, fale um pouco sobre essa etapa.

 

Sandro Araujo:  Sou atleta desde muito criança. Correr, nadar, subir em cordas, praticar lutas. Tudo isso sempre fez parte do meu cotidiano. E quanto ao psicotécnico, segui com a correnteza. Não me preocupei não.

Rumo à PF: A tão sonhada Academia Nacional de Polícia, fale sobre o cotidiano, aulas, colegas, formatura, momentos inesquecíveis e importantes.

Sandro Araujo: Era uma fase difícil. Longe de tudo. Sem saber de absolutamente nada sobre o DPF, coisa que vocês hoje sabem bastante. A diversidade cultural e de vários tipos de personalidade é um grande desafio na ANP. O ideal é criar uma rotina. Ajuda a passar o tempo. E priorizar os estudos. Ter foco. Concentrar-se muito.
Eu saí pouco da Academia. Nos três meses que passei lá, saí duas vezes. Estava muito concentrado. E os momentos inesquecíveis são inúmeros, mas o maior deles foi quando percebi que minha primeira (e única) lotação seria no meu estado de origem, o RJ.

Rumo à PF: Fale sobre sua primeira lotação, entrega de certificado de conclusão de curso, entrega do distintivo, o que sentiu quando segurou pela primeira vez seu distintivo e pistola, o período probatório e como foi a recepção como novato?

Sandro Araujo: Minha primeira lotação foi a Delegacia Previdenciária da SR/RJ. Fui recebido por um delegado folclórico que já me chamou para lutar boxe contra ele na primeira vez que me viu. O distintivo eu trouxe da ANP. E na minha época não era pistola que o novato recebia. Era um Magnum 357, que tive durante 9 anos. Nossa recepção foi um tanto quanto “desconfiada”, pois quando assumimos, a Polícia Federal no RJ estava havia 8 anos sem receber um novato. Foi meio punk o choque de mundos. Os policiais antigões são figuras emblemáticas. Tornaram-se meus ídolos. Aprendi muito com eles.

Rumo à PF: Descreva-nos a profissão Policial Federal, GPI, operações, dia-dia, etc…

Sandro Araujo: Ser policial federal é estar imerso em Universo muito próprio. É acreditar que você faz diferença nas vidas das pessoas. O armamento, por exemplo. Muitos questionam os policiais que andam armados 24h por dia ( eu sou um deles ). Mas esta arma não é minha. É de vocês, das famílias de vocês e da sociedade. Imagine eu presenciar uma ação criminosa na qual posso salvar vidas e perceber que deixei a pistola no armário? Eu nunca quis ser policial de Inteligência. Nada contra quem é (mentira..rsrsrsr).
Fui policial de Operações desde o primeiro segundo.
Até a forma como cheguei para tomar posse denotava isso ( e tomei muita bronca do chefe por causa disso). Boné, calça jeans e tênis. Pensei: “Terno nada. Não quero ser policial engomado.”
Fiz vários cursos na área operacional, inclusive no COT. Chefiei uma equipe que foi precursora dos GPIs, cuja sigla era GPE (Grupamento de Pronto Emprego) entre 2003 e 2006.
Fiz os mais fiéis amigos que um homem poderia ter. Diverti-me muito sob fogo (não se espantem, isso não é coisa de louco). E aprendi, ao longo de 17 anos, a ser o policial que sou hoje.

Rumo à PF: Além de Agente de Polícia Federal você lançou dois projetos paralelos como escritor: Anjo da noite e Federal uma história de polícia. Conte um pouco sobre eles, sobre sua inspiração para escrevê-los e onde podemos adquirí-los.

Sandro Araujo: O Anjo é um romance policial, que tem uma influência grande dos melhores policiais com quem já trabalhei. É um grande livro. Fácil de ler e de cativar. Mas o FEDERAL vende mais, porque fala dos bastidores da Polícia Federal. As operações. Os erros. Os acertos. O lado engraçado. Isso chama a atenção dos leitores, pois são fatos reais, vividos ao longo de 17 anos de profissão.

Rumo à PF: Qual a expectativa de o pessoal da PF trabalhar no exterior. Acredito que exista essa possibilidade. Se existe como acontece o “recrutamento” para tal?

Sandro Araujo: A Polícia Federal não é justa nesse aspecto. Não são os melhores quadros que vão. Política e Indicações predominam.

Rumo à PF: Se hoje, sendo professor, como você era, antes de prestar concurso pra PF em 1993, nas situações atuais da PF e conhecendo a instituição como você conhece nesses 17 anos, você passaria por tudo novamente, preparação e demais etapas para entrar em 2014 no DPF?

Sandro Araujo: É difícil demais responder isso, pois os contextos eram muito diferentes. O Brasil era outro. O DPF era uma caixa de surpresas. Nosso salário inicial, naquela época, em valores de hoje, seria algo em torno de 2 mil reais. Passei por coisas muito boas. Mas muitas coisas muito ruins. Extremamente difíceis. Sinceramente, não sei se, conhecendo como eu conheço, faria tudo novamente. Se fizesse, seria pelo prazer de combater ao lado dos amigos fraternos, viver e morrer sob um ideal.

Rumo à PF: Falando sobre as dinâmicas dentro da ANP, elas servem como uma espécie de recrutamento ou seleção de policiais para trabalhar em setores de acordo com seu perfil (operacional, marítima, tributária, Interpol,aeroportuária) ou chegando na lotação ele vai escolhendo? Como funciona ?

Sandro Araujo: Hoje o foco é formar o aluno para que ele vá para a fronteira. Na minha época até tinha esses recrutamentos. Hoje é bem mais difícil, pela necessidade de rotatividade nas fronteiras.

Rumo à PF: Sandro, temos alguns membros do blog Missão papa Fox que passaram no concurso de 2013 pra escriba e querem saber do cotidiano do escrivão e se ele é preso por burocracias (papelada) ou pode ir pra rua, operações, etc… Lugar de escrivão é na delegacia? Fale sobre a ideia: Escrivão VS Operações de campo.

Sandro Araujo: Com a quantidade de inquéritos que a Polícia Federal tem, é quase impossível hoje em dia ser um escrivão operacional. Tem que ser muito voluntarioso, organizado e dado a sacrifícios para isso. Pois uma vez que ele vá para a rua, em trabalhos de campo, os IPLs continuarão lá, esperando por ele.

Rumo à PF: Sandro, hoje o concurso da PF é um dos mais difíceis e concorridos do Brasil, para um candidato conseguir aprovação e tentar chegar à ANP ele tem que abrir mão de muita coisa e estudar muito forte! Na sua opinião, porque muitos APF’s estão saindo do DPF?

Sandro Araujo: O grande problema é a percepção de que o sonho não é tão dourado. Que o policial de elite tem que ser forjado por conta própria, com muita vontade e abnegação. Que o salário, que é bom para os padrões do Brasil, fica defasado após anos sem fim sem aumento. Que seus conhecimentos e aptidões ficam subaproveitados. Que existem policiais de todas as classes que não conhecem o termo “espírito de corpo”.
Isso vai desgastando o profissional, que vê nele mesmo uma capacidade para alçar vôos maiores.

Rumo à PF: Qual a dica que você daria para quem está estudando hoje e sonha em ostentar a camisa preta e o distintivo da Polícia Federal?

Sandro Araujo: Estudar muito mesmo. Manter sempre o bom humor. A FÉ. Tem que acreditar. E ter consciência que os sonhos devem ser realizados. Se não der certo, novos sonhos surgirão. Mas tenham sempre em mente que a grande e melhor sensação é que fizemos o melhor.

Rumo à PF: Você é líder de um projeto social: Geração Careta. O que lhe motivou a fundá-lo? Qual a ideia?

Sandro Araujo: Combati o tráfico de drogas. Enxuguei gelo. Conheci a realidade das comunidades dominadas pelo tráfico. Vi que aqueles jovens precisam de esperança, de ocupar o tempo ocioso, que é enorme.

Vi que eles precisam de referências do bem no meio policial.
Comecei dando apenas palestras em escolas.
Depois vieram as aulas de artes marciais.
Agora temos um Pré-Vestibular Comunitário.
Aulas de violão.
Aulas de dança de rua.
E dezenas de jovens que o tráfico “perdeu” para nós.

Obrigado Sandro Araujo pela sua contribuição e gentileza em ceder essa breve entrevista. Com certeza muitas dúvidas foram tiradas. Mas, deixo aqui um espaço aberto para você leitor comentar e fazer perguntas ao nosso entrevistado do dia, fique a vontade…

Foco… Força…e Fé…!


Comentários

  1. CeBoLaRK disse:

    Muito bom.

    Eu tenho os dois livros do Sandro. Sou fã desse cara, principalmente por causa do Projeto Geração Careta.

    Parabéns ao Sandro Araújo pela dedicação aos Jovens carentes.

  2. Gustavo disse:

    Muito bom, sigo o Sandro a algum tempo e realmente ele faz um belo trabalho.

    Gostaria de saber o que se estuda e como é ANP, matérias, rotina etc.

    Abraço e Sucesso